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23.6.09

BOLINHO CAIPIRA DE JACAREÍ

Nas ultimas décadas de 1800 duas pessoas vem ao mundo em continentes distantes e tornam-se, de alguma forma, difusores do que hoje é o tradicional Bolinho Caipira de Jacareí.

Era inverno na Pomerânia, norte da Alemanha, quando Augusto, agricultor, sofria com a falta de trabalho e ouviu sobre uma viagem para “um lugar onde tudo se plantando dá”. Chegando em casa, sua esposa Albertina, preparava a sopa, enquanto os filhos, Alberto, Eduardo, Emilia e Mathilde, se aqueciam perto do fogão aproveitando o calor que a lenha proporcionava. Entusiasmado, Augusto contou para a esposa sobre o navio que partiria em fevereiro para um lugar quente, bonito e onde poderiam trabalhar e ter dinheiro para que os filhos pudessem crescer saudáveis e felizes.

Augusto tinha então 56 anos e, viúvo, fazia quase 10 anos que estava casado com a segunda esposa, Albertina, nessa época com 40 anos, mulher de aparência frágil, porém com energia para seguir o marido.

Albertina chamou todos a mesa e conversaram longamente, imaginando como seria a viagem e a aventura de desbravar terras além mares.

Terminada a sopa, decidiram enfim encarar a aventura.

Na mesma semana arrumaram as coisas e partiram para Hamburgo, onde embarcaram no navio Ohio para o início que uma grande viagem que os conduziriam a vida nova.

Foi uma difícil e longa jornada junto com tantas outras famílias que tinham o mesmo sonho. Depois de quase dois meses no mar chegaram finalmente ao país estranho e desejado. Aportaram em Santos. Grande movimentação, muita gente, muitas línguas diferentes, e todos na mesma condição, se aliaram e, juntos, pegaram a Maria Fumaça que os levariam para São Paulo, para Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás, onde receberam cuidados médicos, trocaram suas roupas, comeram com há muito tempo não comiam.

Ficaram na hospedaria cerca de dez dias até, finalmente, serem chamados para embarcar no trem da Central do Brasil com destino ao Vale do Paraíba para trabalhar nas sonhadas plantações de café.

A família desembarcou na pacata cidade de Jacareí, para trabalhar numa grande e próspera fazenda de café.

Alberto, o mais velho, exausto da viagem alucinante, ainda no porto de Santos, resolveu se separar da família e partiu sozinho para o sul do país com a família de um colega que conhecera no navio. A meninas Mathilde e Emilia eram maiorzinhas e Edouard tinha 4 anos.

As coisas não aconteceram como Augusto imaginava. O trabalho nas fazendas era ingrato e o café uma agricultura difícil é árdua. Não resistiu, sentia-se arrependido de ter envolvido toda a sua família em seus devaneios. Amargurado, ele veio a falecer pouco mais de um ano da chegada.

A indústria têxtil estava em franca ascensão e, para ajudar em casa as meninas empregaram-se em uma delas. A mãe, Albertina, desamparada pelo marido que morrera sem sequer aprender a língua da nova terra, fez de tudo para retornar para sua pátria, sonho que jamais se realizou.

Ela viveu ainda muitos anos na cidade de Jacareí recusando-se a aprender o idioma lusitano, talvez assim ela vivesse, ainda que em pensamentos, em seu pais natal.

Eduoard tinha 7 anos quando nasceu um bebê na casa vizinha, todas as crianças se alvoroçaram para ver a criancinha na casa dos portugueses. Era a menina Ana Rita, filha de dona Julia e de seu Felício que acabara de nascer. Certa tarde os alemãezinhos foram convidados para fazer uma visita e conhecer a menininha no berço. Tia Emilia, que lá estava, observou longamente a recém nascida, olhou para Edouard, afagou sua cabeça e vaticinou: “- Sie ist Ihre Braut“(Esta é a sua noiva). Edouard sorriu e, carinhosamente, beijou a testa do bebê.

E foi assim. Cresceram juntos, e, quando a menina completou 14 anos, vestiu grinalda e flores de laranjeira para se tornar a esposa de Edouard, que, então com 21 anos, sentia-se seguro para iniciar a sua própria família, pois trabalhava na mais próspera industrial têxtil de Jacareí, a Fábrica do Sr. Patronas.

A nova família crescia, e cada vez com mais dificuldade para criar os filhos. Ela tinha o apelido de Nicota e ele era Edo. Dona Nicota era excelente cozinheira, e ela criava, como podia, receitas com os parcos recursos para alimentar a família. Edo era um homem recatado, quase tímido, e, sofrendo preconceitos por sua ascendência germânica, em um momento político-social conturbado no mundo com a Primeira Grande Guerra, não conseguia boa remuneração nos trabalhos que encontrava.

Foi novamente numa conversa ao pé do fogão de lenha, como fizeram Augusto e Albertina lá na Pomerânia, que Edo e Nicota decidiram mudar os rumos da família, mais uma vez, para garantir a sobreviência.

Era o ano de 1925, Seu Edo chegou em casa entusiasmado, Dona Nicota preparava uma sopa, enquanto as crianças, Titina, Walter e Gerson, se aqueciam brincando ao lado do fogão. Ele contava que encontrara uma amigo no mercado que oferecera um box comercial. Conversaram muito durante o jantar e decidiram, enfim, que esta era mesmo uma ótima oportunidade de trabalho: um negócio autônomo.

Compraram o box no Mercado Municipal de Jacareí e o transformaram no que viria a ser chamado carinhosamente pela população de “Botequim de Café da Dona Nicota”. Ela preparava salgados e doces, o ponto ficou conhecido e muita gente começou a ir ao mercado provar os quitutes daquela senhora pequena que produzia grandes sabores. E dentre tudo que fazia, o que tinha mais destaque, era o único salgado, os bolinhos de farinha de milho branca recheado com carne de porco que ela havia aprendido com sua mãe, Dona Julia, que desde que Edo era criança eram seus prediletos. Seu Edo ficou responsável pelas compras e pela contabilidade e, ainda, curioso que era por botânica e fitoterapia, costumava receitar remédios caseiros para os freqüentadores do botequim queixosos da saúde.

Esse bolinho nomeado carinhosamente pelos seus apreciadores de “Bolinho Caipira” (Caipira é a pessoa que vive na roça, por estes serem os maiores consumidores) deve sua criação aos tropeiros que passavam pelo Vale do Paraíba em direção ao interior, onde primeiro foi cultivado o milho, vindo dos países do leste da América do Sul.

Consumido fartamente no mês de junho, o milho, representa a gratidão pela colheita, é o alimento de milhares de anos dos povos da região do atual México e que primeiro se espalhou para o sul e depois para o mundo.

Foram os primeiros tropeiros, que traziam mulas carregadas e faziam seu comércio nas terras montanhosas do Vale do Paraíba, que trouxeram o milho para a região do Vale, ensinaram a fazer a farinha e o bolinho. Como seu caminho acompanhava o curso do Rio Paraíba do Sul, rico em peixes, uma das primeiras variações do bolinho é com recheio de peixe, principalmente o lambari.

Quando os tropeiros voltavam carregavam a farinha de milho, que era mais leve que a de mandioca para carregar no lombo dos burros, costumavam parar para descansar às margens do Rio Paraíba, pescavam e untavam os peixes menores, especialmente o lambari, com a farinha de milho, temperando o preparo com as ervas ribeirinhas, como a alfavaca.

A carne de porco não demorou para também servir de recheio. Pequenas criações de suínos eram comuns pelo caminho.

De 1925 e 1953 dona Nicota trabalhou dia e noite fazendo seus quitutes e fritando bolinhos. No dia 04/04/1941 Edo faleceu. Viúva continuou na labuta para criar os filhos, que eram seu maior tesouro. Agora, a ajuda das filhas mais velhas, Albertina e Ruthilde, era imprescindível, e a ajudavam no Botequim de Café até quando ela, já envelhecida, tinha dificuldades para continuar com esse encargo e devolveu o espaço a prefeitura da cidade, que continuou no Mercado por muito tempo ainda.

Octávia, irmã de Nicota casou-se com um soldado e foram morar em Caçapava onde tinha um batalhão do exército e lá seguiu o exemplo da irmã para ajudar a família, difundiu o bolinho caipira usando a farinha de milho amarela que era mais comum naquela cidade.

Devagar, a simples receita de farinha, água e carne de porco se espalhou por todas as cidades das margens do Rio Paraiba e em cada uma tem uma nota diferente, um tempero, um modo de fazer.

A receita original que dona Nicota fazia no Botequim do Café em Jacareí e que tornou apreciado o bolinho caipira é essa:


BOLINHO CAIPIRA DE JACAREÍ


(receita da minha mãe, original da minha avó Nicota)

ingredientes:
1 prato fundo de farinha de milho branca
1 colher cheia de polvilho (de preferencia doce)
1 maço de cheiro verde, predominando alfavaca (o majericão miúdo)
sal a gosto


como fazer:
Misturar bem com as mãos, esfarelando, adicionando água natural em temperatura ambiente até dar ponto para enrolar.
O recheio pode ser linguiça ou carne de porco picadinha,

o recheio mais pitoresco é com peixe, principalmente lambari.
Fritar em oléo bem quente.

Bolinho da vó Nicota


Nos anos 50, quando eu era menininha, uma diversão eram as quermesses no Largo da Matriz de Jacareí, nas ocasiões de festas religiosas, e a grande festa era no dia 8 de dezembro, dia a Imaculada Conceição, padroeira da cidade.

Na pequena cidade de interior do Vale do Paraíba, com a população predominante católica, havia motivos para celebrar os santos. Era motivo também para as pessoas se encontrarem, escutarem a banda tocando no coreto enquanto as crianças brincavam no jardim de canteiros de rosas. Isso acontecia depois da missa. Lembro-me que quando estava dentro da igreja já sentia o cheiro vindo lá de fora e o burburinho dos que estavam montando as barracas.


E tinha procissão. Na Semana Santa, depois da procissão e da missa tinha quermesse. Durante todo o mês de maio havia homenagem à Virgem Mãe, quando as crianças vestidas de anjinhos (e eu fui muitas vezes um deles) depositavam flores nos pés da imagem de Nossa Senhora da Conceição, no altar da Matriz, e depois tinha quermesse.


Em junho aconteciam as festas juninas, além da quermesse do Largo da Matriz as pessoas organizavam festas com fogueira nas casas e soltavam balão. Meu tio Gerson fazia grandes balões coloridos de papel de seda e soltava nas noites de Santo Antonio, São João e São Pedro, lá no quintal da minha avó para alegria de todos, era uma grande emoção ver os balões subindo até sumir aquele pontinho luminoso no céu se misturando com as estrelas.


Na casa da vó Nicota tinha um fogão de lenha, que me recordo, sempre aceso, ela fazia doces e compotas em grandes tachos, eram doce de mamão verde, de abóbora, de laranja, e o cheiro de cravo e canela exalava na casa toda.


Mas minha avó era famosa pelos bolinhos caipira que preparava. Nas quermesses da Matriz lá ia ela, minhas tias, minha mãe e as amigas com os apetrechos montar a barraca e preparar os bolinhos. Era grande movimento dentro da barraca para atender a fila de fregueses. Nunca me deixavam ficar dentro da barraca porque eu era pequena e podia ser perigoso, levavam um fogão e fritavam na própria barraca, espalhando o cheirinho típico por toda a praça. O bolinho saia crocante e quente, feito para aquecer o corpo e os corações.


Depois, quando adolescente, no colégio faziam festas juninas, e minha mãe, como professora de Artes, era uma das organizadoras dessas festas, preparando enfeites e criando brincadeiras para os alunos e suas famílias. E lá também era montada uma barraca de bolinho caipira. Várias pessoas ajudavam, era a barraca mais concorrida. A renda dessa barraca era para a festa de formatura, naquele tempo do então Ginásio.


Para minha mãe esse bolinho tem sabor de namoro. Ela se formou professora, deixou sua cidade, Botucatú, para lecionar em Jacareí, morava num pensionato para moças quando conheceu meu pai, filho de Edo e Nicota. Quando ele ia namorar levava bolinhos caipira quentinhos que minha avó tinha acabado de fritar. E foi assim que ela, curiosa, foi aprender com a sogra a preparar os bolinhos. Foi assim que ficou herdeira da receita e também participou da divulgação do bolinho. Não existia festa em nossa casa que não tivesse os bolinhos.


O sabor daquele bolinho está na minha memória, nunca mais encontrei nada parecido, parece que a alegria das festas tinha a ver com aquele gostinho de farinha de milho branca misturado com carne de porco temperadinha. Uma verdadeira delicia.


Minha mãe continuou com a tradição da familia, fez muitas e muitas vezes o bolinho, sempre presente lá em casa. Depois fez mais muitas e muitas vezes para meus filhos cada vez que ia ver os netos.


Eu aprendi a fazer, mas acho que não tenho "a mão", não fica nem parecido com o que a vó Nicota e a mamãe preparavam, aquele gostinho de infância. Será por causa da farinha? da carne? do óleo? da panela? do fogão? Será por causa da simplicidade que não mais existe?


Hoje vejo inúmeras variações de receitas de bolinho caipira, acrescidos de outros ingredientes, pode até ficar bom, mas gostoso mesmo é aquele com a lembrança do afeto de quando era criança.


Assim são as receitas, de uma criação surgem várias versões, cada cozinheiro dá o seu tom. As tradicionais são as básicas, o que não impede que as novas criações e mesmo as releituras das antigas receitas possam surpreender.


Porém, importante é saber a história, preservar a memória e conservar o que nossos antepassados nos legaram. Por isso, a receita da minha avó Nicota, a dona Ana Rita Leite Gehrke, é mantida como foi criada e continua, para mim, a mais saborosa.


por Jussara Gehrke, neta de Edo e Nicota

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