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2.4.11

Jaime Alem em Jacarei

Em comemoração aos 359 anos de Jacareí completando neste 3 de abril, acontecem esta semana vários eventos na cidade. Um belo e emocionante show levou muita gente para o saudoso salão do Trianon Clube, que agora reformado pertence à prefeitura. Só de ver esse piso de tacos quadriculados já vem à lembrança os momentos felizes que passei por lá nos grandes bailes e carnavais...
Foi nesse lugar cheio de memórias que os jacareienses Jaime e Nair voltaram a se apresentar, depois de 42 anos longe.



comentários de quem foi ao show:

E o "nosso menino" da Rua Antonio Afonso deu um show de talento !!!
Ontem à noite, Jacareí encheu-se de orgulho desse filho querido e todos nós nos emocionamos....
aime, não tenho palavras suficientes para expressar o orgulho e a emoção de ver aquele menino de ontem, meu vizinho da Rua Antonio Afonso, que mal saia de casa de tanto estudar música...hoje um homem de sucesso, emocionado, simpático, talentoso demais.
Obrigada pela honra de poder fotografar esses momentos e mais do que isso, obrigada por me fazer sentir orgulho de ser Jacareiense!
(da fotógrafa Edna Medici)

Que loucura rever tanta gente em tão pouco tempo. Que loucura rever tanto tempo em 2 horas de show. Que loucura saber que já se passaram 42 anos. Quanta emoção nas palavras do Jaime, na voz embargada da Nair... Que maravilhoso ter a certeza de que essa foi a vida que escolhi para mim e que depois desses 42 anos eu ainda acredito fielmente e me emociono. O primeiro FEMPO que assisti mudou a minha vida por completo e eu mais uma vez agradeço àqueles que foram meus ídolos porque me mostraram o caminho da música e da emoção. O sonho continua mesmo depois de 42 anos: cantar, cantar, cantar pra gente ser feliz!!!
(da cantora Celi Redondo)

 Nossa, foi uma noite emocionante! Confesso que cheguei às lágrimas, junto com a emoção desse casal tão talentoso. Que orgulho para nós ver esses filhos tão queridos de nossa cidade ali, naquele salão que tantas alegrias já nos deu. Viajar nas cordas, na extrema perícia do Jaime , a voz maravilhosa de Nair, a presença fantástica do Jorjão, tudo perfeito. E de quebra, conhecer o talento de novos "meninos", como Tuia e Fabinho. Uma noite memorável, inesquecível, apaioxonante! Obrigada Jaime e Nair.
(Suzana Lima)


Jaime e Nair, obrigada pelos momentos maravilhosos que nos proporcionaram! A emoção tomou conta de todos os jacareienses e amigos presentes. O palco ficou iluminado de alegria e cumplicidade com a platéia. Foi lindo!
(Lucia Mazzeo)


Foi tudo encantador, do primeiro acorde ao último gole de chopp preto do Gordo. Meu coração transbordou de alegria e emoção, porém naquele momento em que o FEMPO e a Claudia foram lembrados eu desabei! Muito, muito obrigada meus amigos...
(Paula Gaspar Machado)


*

2.12.10

o baile (que eu não fui) em Jacareí

Foi muita expectativa para este Baile de Gala que aconteceu sábado passado (27 de novembro) em Jacarei. Tudo começou há pouco tempo, em junho, quando criei o grupo Jacareienses pelo Mundo, para encontrar meus amigos de adolescência da minha cidade natal. Já contei sobre um encontro que tivemos em julho em outro post, aqui. E desde então está sendo planejado e esperado esse novo encontro, que desta vez foi mais gente, todos vestidos em grande estilo para dançar ao som das músicas dos anos 60 e 70, relembrando os bailes de então.
Nestas fotos dá para perceber que o pessoal gostou da festa, foram até alta madrugada festejando o reencontro de amigos que não se viam há muito tempo.


Foi um sucesso a festa, ficou com gosto de "quero mais", e por isso já está sendo planejada a próxima, pelo jeito essa turma não vai parar mais de festejar, gente animada. As fotos mostram alguns flashes, foram perto de 250 pessoas, gente que veio de longe. Tudo isso graças à internet e ao Facebook., não é incrível? Agora estamos sempre conectados.
Não pude ir ao baile, mandei um recadinho que minha amiga leu para todos.

Meus Caros Novos Velhos Amigos,

Vivemos juntos aquela parte de nossa vida em que sonhávamos com o futuro que é hoje nosso presente. Depois de tantos anos sem muitos saberem notícias uns dos outros, tivemos a chance de nos reencontrar por um feliz acaso.

Vivemos juntos as emoções dos bailes no saudoso salão do Trianon, onde o som das grandes orquestras embalavam nossos sonhos, e justamente por isso resolvemos reeditar aquela época nesta festa de hoje.

Finalmente chegou o dia do tão esperado baile!

A expectativa foi grande, durante os últimos meses o tema “Baile” esteve nas conversas no Facebook, relembrando músicas, as roupas, os passos de dança, os temas das festas dos nossos anos dourados. Como diz minha mãe: “o melhor da festa é esperar por ela!”, foi muito papo animado sobre este tão esperado momento mais que especial.

Agora, aqui reunidos, a emoção é forte... emoções nós vivemos... e viveremos hoje...vamos levar conosco as emoções desta noite...

Foi ao acaso que numa noite de junho, lá na Bahia, decidi criar o grupo no Facebook para ver se apareceriam algumas daquelas pessoas que partilharam os anos 60 e 70 em Jacareí, cidade tão pequena que todos nós, jovens, nos conhecíamos, freqüentávamos a mesma escola, o mesmo clube, o mesmo cinema, a mesma praça, as mesmas festas, éramos todos amigos (a não ser alguma richazinha momentânea, nada que tenha restado mágoas, coisas da juventude...)

Algumas poucas pessoas eu tinha contato eventual por email ou em outros sites de relacionamento na internet, então achei que no Facebook poderia encontrar mais gente com um nome atrativo para o grupo: “Jacareienses pelo Mundo”, porque o pessoal se espalhou por esse mundo afora...
E não é que deu certo?! O grupo tem hoje mais de 400 membros, gente que vive em várias partes do Brasil, da Europa, dos Estados Unidos e, como este grupo tem apenas 5 meses, com certeza ainda muitos mais vão aparecer por lá.

Bem, quando amigos se reencontram querem mais é comemorar e foi assim que logo no inicio do grupo começamos a planejar uma grande festa para este final de ano.

Uma noite eu estava conversando pelo chat do Facebook com a Marilena Masiero e Walnery Siqueira, e começamos a “viajar” na idéia da festa, foi quando pensamos: Por que não um baile? Ficamos entusiasmamos na hora e o papo rolou sobre como fazer esse baile, foram muitas as idéias até pensarmos num “baile de gala” para lembrarmos dos bailes de nossa juventude, os meninos de gravatinha borboleta e as meninas de longos... não era lindo?!

Algumas pessoas começaram a planejar como fazer a festa, e para pensar na festa, foi feita outra festa! Tudo é motivo pra gente ser feliz, não é?

Em julho, quando o grupo tinha apenas um mês, fizemos uma deliciosa reunião, éramos mais de 100 pessoas num alegre almoço. Antes, nos encontramos no Parque da Cidade e plantamos uma árvore, lá já começaram as emoções, foi incrível rever amigos que não via há mais de 40 anos!

(Ops... tanto tempo assim se passou? Eu nem percebi!).

Pois é, passou todo esse tempo, seguimos caminhos diferentes, cada um construiu sua vida, mas nossa base comum é a cidade e as pessoas daqueles anos, foi o que vivemos lá que nos trouxe até aqui. Os professores, os amigos, as pessoas que faziam parte do nosso dia-a-dia de então, todas estão guardadas dentro de nós.

Que oportunidade maravilhosa estarmos juntos nesta noite!

Recebi o apelido de “embaixatriz” por ser a autora, afinal eu inventei essa história toda, nunca imaginei que pudesse acontecer tudo que ocorreu nesses meses de junho até hoje, o pessoal se animou mesmo!

No encontro de julho, vários se empenharam para organizar a festa: Ruy Truyts e Silvana, Alberto Capucci, Nydia Natali, Roberto de Moura, Mariangela Azevedo, Edna Médici.
Para este baile, se não fossem as Judiths não haveria festa!
Judith Pedroso e Judith Bonocchi cuidaram de tudo com muito esmero para esta festa linda! Sem elas não haveria o baile! Muitas outras pessoas colaboraram, e à todos que nos proporcionaram essa noite feliz, nosso agradecimento e admiração.

Não foi possível eu estar presente nesta noite, mas sei que todos estão pensando em mim, mesmo se não tivesse enviado esta mensagem, vocês são muito queridos! O meu afeto com um abraço carinhoso à todos vocês, meus amigos!

E agora vamos festar gente!!!!


agora é começar pensar na próxima e curtir novamente a expectativa
meu agradecimento especial à todos que fizeram esta festa brilhar!

27.11.10

Jacareí, Rua Corneteiro Jesus

Era muito estranho imaginar Jesus com aqueles longos cabelos loiros frisados e os aquosos olhos azuis de-tudo-ver de repente perder a pose e levar uma corneta à boca. Eu não entendia de jeito nenhum e gastei muito tempo pensando no assunto. A imagem que me vinha era sempre a de minha cornetinha vermelha de brinquedo nos lábios divinos. Acabei expondo minhas dúvidas na aula de religião mas foi tamanha a balbúrdia de gargalhadas e a irmã Juliza zonza que me vi condenada a uma semana sem recreio sozinha na imensa sala de carteiras duplas com janelas escancaradas para o pátio-do-lado-dos-meninos, porque as freiras sempre dividiam a área, daquela árvore pra lá as meninas, pra cá os meninos e a irmã Falésia no meio guardando a fronteira. E eu lá em cima, respirando uma nuvem de conversas e risos, pão com banana, groselha e paçoca, entre uma linha e outra de jesus ama as crianças que tinha de escrever mil vezes. 
  Queimando de ódio, eu vivia retumbantes desforras, o colégio em chamas e apenas eu lá dentro, entregando minha alma em sacrifício enquanto as freiras malvadas se consumiam num inferno de culpa. Só que essa cena às vezes acabava com um solícito bombeiro aparecendo na hora H e aí acontecia a tragédia. O bom homem, depois de me resgatar das labaredas, pedia meu endereço à madre superiora e alguém se intrometia: "ela mora na rua Corneteiro Jesus". Pronto. Ia ser jesus ama as crianças pelo resto da vida. 
  Pesadelos me perseguiam à noite, me escondia pelos cantos durante o dia e não podia mais nem ver a cornetinha vermelha. Foi meu pai quem deslindou o mistério, quando, por andar cabulando aulas, tive de lhe explicar por que achava que lugar de meninas era em casa e não na escola. Não consegui defender por muito tempo meu novo ponto de vista e terminei confessando meus ímpetos assassinos desencadeados com a história da corneta. 
  Esse Jesus era outro, afinal. Um pretinho que foi pra guerra do Paraguai e era tão fraquinho que só conseguia carregar a corneta, uma corneta toda dourada, igual à da estátua do soldado na praça da matriz, por alguma sacanagem do povo da cidade apontada para a farmácia do Jarbas para lembrar todo mundo que na guerra da Itália o Jarbas se escondeu e deixou os outros rapazes se ferrarem sozinhos. Mas o Jesus preto foi muito antes, então um dia no meio da batalha o comandante achou que iam perder e mandou tocar retirada, mas o Jesus desobedeceu e tocou avançar. A tropa se entusiasmou, foi lá e matou os bandidos paraguaios, salvando o Brasil. Só que na pressa atropelaram o Jesus, coitado, tão fraquinho e preto e ele morreu e virou nome da minha rua. 
  Foi por causa do corneteiro Jesus que comecei a querer aulas de piano. Eu me via linda, num lindo vestido branco esvoaçante, com lindos laços de fita me prendendo as tranças, tocando músicas tão sublimes que as freiras iam chorar e dizer ela é uma santinha deus lhe deu esse dom e todos iam me olhar com inveja e nunca mais jesus ama as crianças. 
  Tanto pedi e implorei que minha mãe, convencida de que podia ser o despertar de algum insupeitado talento, tratou lições de música com dona Odete duas casas adiante da minha. Ah, aquela sala, cheia de verdes e dourados, que me embalava com seu cheiro morno de aconchego e aventura, enquanto meu coração disparava e a mão tremia misturando fusas e semifusas. A clave de sol era uma réstea no tapete e ao meu lado um vulto de longos cabelos negros e lábios vermelhos me atordoava de alfazemas. Eu fazia parte de uma orquestra de anjos e por isso hoje não me surpreendo de não distinguir um fá de um sol. Anjos ouvem com a alma, não com o ouvido. 
  Como aquelas tardes, só mesmo anos depois, quando meu coração desembestou numa sala em penumbra ao reconhecer o cheiro do céu. O engraçado é que não havia piano nem vestido branco ou laços de fita. O tempo das fronteiras estava longe, era outra cidade e outra rua, mas assim mesmo senti que finalmente havia acertado as contas com o corneteiro Jesus.  
  
Liz Mercadante  - Conto da Oficina, 1989 
foto: "Rua Corneteiro Jesus" - Mércia de Souza, 2008

23.6.09

Bolinho Caipira de Jacareí


Nas ultimas décadas de 1800 duas pessoas vem ao mundo em continentes distantes e tornam-se, de alguma forma, difusores do que hoje é o tradicional Bolinho Caipira de Jacareí.
Era inverno na Pomerânia, norte da Alemanha, quando Augusto, agricultor, sofria com a falta de trabalho e ouviu sobre uma viagem para “um lugar onde tudo se plantando dá”. Chegando em casa, sua esposa Albertina, preparava a sopa, enquanto os filhos, Alberto, Eduardo, Emilia e Mathilde, se aqueciam perto do fogão aproveitando o calor que a lenha proporcionava. Entusiasmado, Augusto contou para a esposa sobre o navio que partiria em fevereiro para um lugar quente, bonito e onde poderiam trabalhar e ter dinheiro para que os filhos pudessem crescer saudáveis e felizes.
Augusto tinha então 56 anos e, viúvo, fazia quase 10 anos que estava casado com a segunda esposa, Albertina, nessa época com 40 anos, mulher de aparência frágil, porém com energia para seguir o marido.
Albertina chamou todos a mesa e conversaram longamente, imaginando como seria a viagem e a aventura de desbravar terras além mares.
Terminada a sopa, decidiram enfim encarar a aventura.
Na mesma semana arrumaram as coisas e partiram para Hamburgo, onde embarcaram no navio Ohio para o início que uma grande viagem que os conduziriam a vida nova.
Foi uma difícil e longa jornada junto com tantas outras famílias que tinham o mesmo sonho. Depois de quase dois meses no mar chegaram finalmente ao país estranho e desejado. Aportaram em Santos. Grande movimentação, muita gente, muitas línguas diferentes, e todos na mesma condição, se aliaram e, juntos, pegaram a Maria Fumaça que os levariam para São Paulo, para Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás, onde receberam cuidados médicos, trocaram suas roupas, comeram com há muito tempo não comiam.
Ficaram na hospedaria cerca de dez dias até, finalmente, serem chamados para embarcar no trem da Central do Brasil com destino ao Vale do Paraíba para trabalhar nas sonhadas plantações de café.
A família desembarcou na pacata cidade de Jacareí, para trabalhar numa grande e próspera fazenda de café.
Alberto, o mais velho, exausto da viagem alucinante, ainda no porto de Santos, resolveu se separar da família e partiu sozinho para o sul do país com a família de um colega que conhecera no navio. A meninas Mathilde e Emilia eram maiorzinhas e Edouard tinha 4 anos.
As coisas não aconteceram como Augusto imaginava. O trabalho nas fazendas era ingrato e o café uma agricultura difícil é árdua. Não resistiu, sentia-se arrependido de ter envolvido toda a sua família em seus devaneios. Amargurado, ele veio a falecer pouco mais de um ano da chegada.
A indústria têxtil estava em franca ascensão e, para ajudar em casa as meninas empregaram-se em uma delas. A mãe, Albertina, desamparada pelo marido que morrera sem sequer aprender a língua da nova terra, fez de tudo para retornar para sua pátria, sonho que jamais se realizou.
Ela viveu ainda muitos anos na cidade de Jacareí recusando-se a aprender o idioma lusitano, talvez assim ela vivesse, ainda que em pensamentos, em seu pais natal.
Eduoard tinha 7 anos quando nasceu um bebê na casa vizinha, todas as crianças se alvoroçaram para ver a criancinha na casa dos portugueses. Era a menina Ana Rita, filha de dona Julia e de seu Felício que acabara de nascer. Certa tarde os alemãezinhos foram convidados para fazer uma visita e conhecer a menininha no berço. Tia Emilia, que lá estava, observou longamente a recém nascida, olhou para Edouard, afagou sua cabeça e vaticinou: “- Sie ist Ihre Braut“(Esta é a sua noiva). Edouard sorriu e, carinhosamente, beijou a testa do bebê.
E foi assim. Cresceram juntos, e, quando a menina completou 14 anos, vestiu grinalda e flores de laranjeira para se tornar a esposa de Edouard, que, então com 21 anos, sentia-se seguro para iniciar a sua própria família, pois trabalhava na mais próspera industrial têxtil de Jacareí, a Fábrica do Sr. Patronas.
A nova família crescia, e cada vez com mais dificuldade para criar os filhos. Ela tinha o apelido de Nicota e ele era Edo. Dona Nicota era excelente cozinheira, e ela criava, como podia, receitas com os parcos recursos para alimentar a família. Edo era um homem recatado, quase tímido, e, sofrendo preconceitos por sua ascendência germânica, em um momento político-social conturbado no mundo com a Primeira Grande Guerra, não conseguia boa remuneração nos trabalhos que encontrava.
Foi novamente numa conversa ao pé do fogão de lenha, como fizeram Augusto e Albertina lá na Pomerânia, que Edo e Nicota decidiram mudar os rumos da família, mais uma vez, para garantir a sobreviência.
Era o ano de 1925, Seu Edo chegou em casa entusiasmado, Dona Nicota preparava uma sopa, enquanto as crianças, Titina, Walter e Gerson, se aqueciam brincando ao lado do fogão. Ele contava que encontrara uma amigo no mercado que oferecera um box comercial. Conversaram muito durante o jantar e decidiram, enfim, que esta era mesmo uma ótima oportunidade de trabalho: um negócio autônomo.
Compraram o box no Mercado Municipal de Jacareí e o transformaram no que viria a ser chamado carinhosamente pela população de “Botequim de Café da Dona Nicota”. Ela preparava salgados e doces, o ponto ficou conhecido e muita gente começou a ir ao mercado provar os quitutes daquela senhora pequena que produzia grandes sabores. E dentre tudo que fazia, o que tinha mais destaque, era o único salgado, os bolinhos de farinha de milho branca recheado com carne de porco que ela havia aprendido com sua mãe, Dona Julia, que desde que Edo era criança eram seus prediletos. Seu Edo ficou responsável pelas compras e pela contabilidade e, ainda, curioso que era por botânica e fitoterapia, costumava receitar remédios caseiros para os freqüentadores do botequim queixosos da saúde.
Esse bolinho nomeado carinhosamente pelos seus apreciadores de “Bolinho Caipira” (Caipira é a pessoa que vive na roça, por estes serem os maiores consumidores) deve sua criação aos tropeiros que passavam pelo Vale do Paraíba em direção ao interior, onde primeiro foi cultivado o milho, vindo dos países do leste da América do Sul.
Consumido fartamente no mês de junho, o milho, representa a gratidão pela colheita, é o alimento de milhares de anos dos povos da região do atual México e que primeiro se espalhou para o sul e depois para o mundo.
Foram os primeiros tropeiros, que traziam mulas carregadas e faziam seu comércio nas terras montanhosas do Vale do Paraíba, que trouxeram o milho para a região do Vale, ensinaram a fazer a farinha e o bolinho. Como seu caminho acompanhava o curso do Rio Paraíba do Sul, rico em peixes, uma das primeiras variações do bolinho é com recheio de peixe, principalmente o lambari.
Quando os tropeiros voltavam carregavam a farinha de milho, que era mais leve que a de mandioca para carregar no lombo dos burros, costumavam parar para descansar às margens do Rio Paraíba, pescavam e untavam os peixes menores, especialmente o lambari, com a farinha de milho, temperando o preparo com as ervas ribeirinhas, como a alfavaca.
A carne de porco não demorou para também servir de recheio. Pequenas criações de suínos eram comuns pelo caminho.
De 1925 e 1953 dona Nicota trabalhou dia e noite fazendo seus quitutes e fritando bolinhos. No dia 04/04/1941 Edo faleceu. Viúva continuou na labuta para criar os filhos, que eram seu maior tesouro. Agora, a ajuda das filhas mais velhas, Albertina e Ruthilde, era imprescindível, e a ajudavam no Botequim de Café até quando ela, já envelhecida, tinha dificuldades para continuar com esse encargo e devolveu o espaço a prefeitura da cidade, que continuou no Mercado por muito tempo ainda.
Octávia, irmã de Nicota casou-se com um soldado e foram morar em Caçapava onde tinha um batalhão do exército e lá seguiu o exemplo da irmã para ajudar a família, difundiu o bolinho caipira usando a farinha de milho amarela que era mais comum naquela cidade.
Devagar, a simples receita de farinha, água e carne de porco se espalhou por todas as cidades das margens do Rio Paraiba e em cada uma tem uma nota diferente, um tempero, um modo de fazer.
A receita original que dona Nicota fazia no Botequim do Café em Jacareí e que tornou apreciado o bolinho caipira é essa:



Bolinho da vó Nicota

Nos anos 50, quando eu era menininha, uma diversão eram as quermesses no Largo da Matriz de Jacareí, nas ocasiões de festas religiosas, e a grande festa era no dia 8 de dezembro, dia a Imaculada Conceição, padroeira da cidade.
Na pequena cidade de interior do Vale do Paraíba, com a população predominante católica, havia motivos para celebrar os santos. Era motivo também para as pessoas se encontrarem, escutarem a banda tocando no coreto enquanto as crianças brincavam no jardim de canteiros de rosas. Isso acontecia depois da missa. Lembro-me que quando estava dentro da igreja já sentia o cheiro vindo lá de fora e o burburinho dos que estavam montando as barracas.

Igreja Matriz

E tinha procissão. Na Semana Santa, depois da procissão e da missa tinha quermesse. Durante todo o mês de maio havia homenagem à Virgem Mãe, quando as crianças vestidas de anjinhos (e eu fui muitas vezes um deles) depositavam flores nos pés da imagem de Nossa Senhora da Conceição, no altar da Matriz, e depois tinha quermesse.

Em junho aconteciam as festas juninas, além da quermesse do Largo da Matriz as pessoas organizavam festas com fogueira nas casas e soltavam balão. Meu tio Gerson fazia grandes balões coloridos de papel de seda e soltava nas noites de Santo Antonio, São João e São Pedro, lá no quintal da minha avó para alegria de todos, era uma grande emoção ver os balões subindo até sumir aquele pontinho luminoso no céu se misturando com as estrelas.

Na casa da vó Nicota tinha um fogão de lenha, que me recordo, sempre aceso, ela fazia doces e compotas em grandes tachos, eram doce de mamão verde, de abóbora, de laranja, e o cheiro de cravo e canela exalava na casa toda.

vó Nicota

Mas minha avó era famosa pelos bolinhos caipira que preparava. Nas quermesses da Matriz lá ia ela, minhas tias, minha mãe e as amigas com os apetrechos montar a barraca e preparar os bolinhos. Era grande movimento dentro da barraca para atender a fila de fregueses. Nunca me deixavam ficar dentro da barraca porque eu era pequena e podia ser perigoso, levavam um fogão e fritavam na própria barraca, espalhando o cheirinho típico por toda a praça. O bolinho saia crocante e quente, feito para aquecer o corpo e os corações.

CENE Silva Prado

Depois, quando adolescente, no colégio faziam festas juninas, e minha mãe, como professora de Artes, era uma das organizadoras dessas festas, preparando enfeites e criando brincadeiras para os alunos e suas famílias. E lá também era montada uma barraca de bolinho caipira. Várias pessoas ajudavam, era a barraca mais concorrida. A renda dessa barraca era para a festa de formatura, naquele tempo do então Ginásio.

minha mãe com 18 anos

Para minha mãe esse bolinho tem sabor de namoro. Ela se formou professora, deixou sua cidade, Botucatú, para lecionar em Jacareí, morava num pensionato para moças quando conheceu meu pai, filho de Edo e Nicota. Quando ele ia namorar levava bolinhos caipira quentinhos que minha avó tinha acabado de fritar. E foi assim que ela, curiosa, foi aprender com a sogra a preparar os bolinhos. Foi assim que ficou herdeira da receita e também participou da divulgação do bolinho. Não existia festa em nossa casa que não tivesse os bolinhos.

O sabor daquele bolinho está na minha memória, nunca mais encontrei nada parecido, parece que a alegria das festas tinha a ver com aquele gostinho de farinha de milho branca misturado com carne de porco temperadinha. Uma verdadeira delicia.

Minha mãe continuou com a tradição da familia, fez muitas e muitas vezes o bolinho, sempre presente lá em casa. Depois fez mais muitas e muitas vezes para meus filhos cada vez que ia ver os netos.

Eu aprendi a fazer, mas acho que não tenho "a mão", não fica nem parecido com o que a vó Nicota e a mamãe preparavam, aquele gostinho de infância. Será por causa da farinha? da carne? do óleo? da panela? do fogão? Será por causa da simplicidade que não mais existe?

Hoje vejo inúmeras variações de receitas de bolinho caipira, acrescidos de outros ingredientes, pode até ficar bom, mas gostoso mesmo é aquele com a lembrança do afeto de quando era criança.

Assim são as receitas, de uma criação surgem várias versões, cada cozinheiro dá o seu tom. As tradicionais são as básicas, o que não impede que as novas criações e mesmo as releituras das antigas receitas possam surpreender.

Porém, importante é saber a história, preservar a memória e conservar o que nossos antepassados nos legaram. Por isso, a receita da minha avó Nicota, a dona Ana Rita Leite Gehrke, é mantida como foi criada e continua, para mim, a mais saborosa.

por Jussara Gehrke, neta de Edo e Nicota

15.6.08

1968

Priscila, Thelminha, Cora e eu (note a minha saia... fashion sempre!...hehe)
Posted by Picasa

22.5.08

JACAREÍ, lembranças...

Eu costumo dizer que a minha Jacareí só existe dentro de mim... Nasci lá nos anos 50 e vivi na cidade até os anos 70 e depois disso a cidade mudou muito e eu também, pouquissimas vezes voltei.
Me emocionei com estas fotos, presente de Laerte Puppo. Eu havia dito que gostaria de ver alguns lugares da minha infância e adolescência e ele saiu com sua câmera para registrar todos os lugares que citei. Hoje abri o cd de fotos que ele enviou, me emocionei...
(esta foto p&B ao lado é de 1970, com o Orlando)

porta de entrada do Edifício Alba, onde morei até 1975 lateral do prédio, bem diferente, ele era amarelo claro com janelas verde escuro, tinha uma mureta com floreiras onde cresciam coroas de cristo e o jardim era cheio de hortencias; morávamos no térreo e a primeira janela com veneziana era o meu quarto.
Grupo Escolar Coronel Carlos Porto, o "Grupão", na mesma rua da minha casa, onde estudei o Primário, hoje o casarão abriga um museu

quando estudei aqui era Colégio Estadual e Escola Normal Doutor Francisco Gomes da Silva Prado, terminei o curso Normal em 1970

este "arco-iris verde-amarelo" pintado nas pedras foi feito nos anos de ufanismo militar e continua lá, estragou o prédio.









igrejinha do Avareí, onde começou a vila que se transformou na cidade












vitrais da capelinha da Igreja Matriz, um lugar lindo e de muita paz...









altar da capela Coração de Jesus onde fica o Santíssimo
a Matriz

altar da matriz Nossa Senhora da Conceição padroeira de Jacarei
relógio da Igreja de São Benedito
igreja de São Benedito no Largo do Rosário
igrejinha de Nossa Senhora Aparecida, perto do rio Paraíba do Sul
belo prédio da delegacia, funcionava aí a cadeia pública municipal
piscinas do Clube de Campo, quantas boas lembranças...
obrigada Puppo!!!!

5.12.07

Foi aqui que eu nasci

Santa Casa de Jacareí, SP, foi onde nasci

6.3.07

Caminho Suave e o Grupão



saia de sarja plissada

azul marinho,

camisa branca engomada

no colarinho.


Nos idos anos 50 eu frequentava o velho Grupão, Grupo Escolar Coronel Carlos Porto, no casarão que foi transformado em Museu.


Foi a Caminho Suave que me apresentou as primeiras letras.


15.2.07

Jacarehy


E falando de música italiana recordo os tempos de adolescência em Jacareí, minha cidade natal, no Vale do Paraíba. Nos anos 60 a cidade era muito diferente do que é atualmente. A Ponte Velha não existe mais, eu morava bem perto da ponte e podia à noite ouvir o ruído das águas atravessando as pedras que foram colocadas para calçar as bases da ponte.

Faz muitos anos que não vou lá, gosto de ter as lembranças de como era: o Largo da Matriz com os flamboyants, o coreto onde a banda tocava, o Largo do Rosário dos namorados nos bancos de jardim, o footing na Praça Conde Frontin que era atravessada pelos trilhos da Central do Brasil, o Grupão, o Colégio Silva Prado, o Conservatório, as prainhas na beira do rio, os casarões, as ruas estreitas e tortas com paralelepípedos, a esquina do Bar dos 4 Cantos onde havia o único semáforo da cidade, as charretes, o Trianon com seus grandes bailes, as piscinas do Clube de Campo, o Náutico na beira do rio, o Bar Brasil com o ponto de ônibus Pássaro Marron, a pizza do Bar do Brito, a estreita Sorveteria Leal, os sequilhos da Fábrica de Biscoutos Jacarehy, o pão da Padaria Paris, o bairro onde eu morava que tinha o apelido de 'esmaga-sapo', o cheiro da torrefação do Café Truyts... Os jacarienses que viveram naquela época lá sabem bem como era bucólica a cidade... agora fico chocada quando vou visitar aquele lugar estranho pra mim...

O significado etimológico de Jacareí é rio de jacarés, segundo a maioria dos autores que estudou o seu sentido. Porém, no “Dicionário Geográfico da Província de São Paulo”, de João Mendes de Almeida, etimologicamente Y-aqûa-yerê-eí significa esquina e volta desnecessárias, referente à volta do Rio Paraíba em Jacareí.