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27.11.10

Jacareí, Rua Corneteiro Jesus

Era muito estranho imaginar Jesus com aqueles longos cabelos loiros frisados e os aquosos olhos azuis de-tudo-ver de repente perder a pose e levar uma corneta à boca. Eu não entendia de jeito nenhum e gastei muito tempo pensando no assunto. A imagem que me vinha era sempre a de minha cornetinha vermelha de brinquedo nos lábios divinos. Acabei expondo minhas dúvidas na aula de religião mas foi tamanha a balbúrdia de gargalhadas e a irmã Juliza zonza que me vi condenada a uma semana sem recreio sozinha na imensa sala de carteiras duplas com janelas escancaradas para o pátio-do-lado-dos-meninos, porque as freiras sempre dividiam a área, daquela árvore pra lá as meninas, pra cá os meninos e a irmã Falésia no meio guardando a fronteira. E eu lá em cima, respirando uma nuvem de conversas e risos, pão com banana, groselha e paçoca, entre uma linha e outra de jesus ama as crianças que tinha de escrever mil vezes. 
  Queimando de ódio, eu vivia retumbantes desforras, o colégio em chamas e apenas eu lá dentro, entregando minha alma em sacrifício enquanto as freiras malvadas se consumiam num inferno de culpa. Só que essa cena às vezes acabava com um solícito bombeiro aparecendo na hora H e aí acontecia a tragédia. O bom homem, depois de me resgatar das labaredas, pedia meu endereço à madre superiora e alguém se intrometia: "ela mora na rua Corneteiro Jesus". Pronto. Ia ser jesus ama as crianças pelo resto da vida. 
  Pesadelos me perseguiam à noite, me escondia pelos cantos durante o dia e não podia mais nem ver a cornetinha vermelha. Foi meu pai quem deslindou o mistério, quando, por andar cabulando aulas, tive de lhe explicar por que achava que lugar de meninas era em casa e não na escola. Não consegui defender por muito tempo meu novo ponto de vista e terminei confessando meus ímpetos assassinos desencadeados com a história da corneta. 
  Esse Jesus era outro, afinal. Um pretinho que foi pra guerra do Paraguai e era tão fraquinho que só conseguia carregar a corneta, uma corneta toda dourada, igual à da estátua do soldado na praça da matriz, por alguma sacanagem do povo da cidade apontada para a farmácia do Jarbas para lembrar todo mundo que na guerra da Itália o Jarbas se escondeu e deixou os outros rapazes se ferrarem sozinhos. Mas o Jesus preto foi muito antes, então um dia no meio da batalha o comandante achou que iam perder e mandou tocar retirada, mas o Jesus desobedeceu e tocou avançar. A tropa se entusiasmou, foi lá e matou os bandidos paraguaios, salvando o Brasil. Só que na pressa atropelaram o Jesus, coitado, tão fraquinho e preto e ele morreu e virou nome da minha rua. 
  Foi por causa do corneteiro Jesus que comecei a querer aulas de piano. Eu me via linda, num lindo vestido branco esvoaçante, com lindos laços de fita me prendendo as tranças, tocando músicas tão sublimes que as freiras iam chorar e dizer ela é uma santinha deus lhe deu esse dom e todos iam me olhar com inveja e nunca mais jesus ama as crianças. 
  Tanto pedi e implorei que minha mãe, convencida de que podia ser o despertar de algum insupeitado talento, tratou lições de música com dona Odete duas casas adiante da minha. Ah, aquela sala, cheia de verdes e dourados, que me embalava com seu cheiro morno de aconchego e aventura, enquanto meu coração disparava e a mão tremia misturando fusas e semifusas. A clave de sol era uma réstea no tapete e ao meu lado um vulto de longos cabelos negros e lábios vermelhos me atordoava de alfazemas. Eu fazia parte de uma orquestra de anjos e por isso hoje não me surpreendo de não distinguir um fá de um sol. Anjos ouvem com a alma, não com o ouvido. 
  Como aquelas tardes, só mesmo anos depois, quando meu coração desembestou numa sala em penumbra ao reconhecer o cheiro do céu. O engraçado é que não havia piano nem vestido branco ou laços de fita. O tempo das fronteiras estava longe, era outra cidade e outra rua, mas assim mesmo senti que finalmente havia acertado as contas com o corneteiro Jesus.  
  
Liz Mercadante  - Conto da Oficina, 1989 
foto: "Rua Corneteiro Jesus" - Mércia de Souza, 2008

26.11.08

Natureza na cidade

passarela sobre av Francisco Matarazzo e igreja de São Geraldo
jardim da Casa das Rosas na av Paulista
ipê roxo ao lado da igreja do Largo Padre Péricles
rua do bairro de Higienópolis
entrada do shopping Paulista

17.8.08

apartamento do Brás

bela vista da cidade
Rua Piratininga vista da janela do quarto

22.5.08

JACAREÍ, lembranças...

Eu costumo dizer que a minha Jacareí só existe dentro de mim... Nasci lá nos anos 50 e vivi na cidade até os anos 70 e depois disso a cidade mudou muito e eu também, pouquissimas vezes voltei.
Me emocionei com estas fotos, presente de Laerte Puppo. Eu havia dito que gostaria de ver alguns lugares da minha infância e adolescência e ele saiu com sua câmera para registrar todos os lugares que citei. Hoje abri o cd de fotos que ele enviou, me emocionei...
(esta foto p&B ao lado é de 1970, com o Orlando)

porta de entrada do Edifício Alba, onde morei até 1975 lateral do prédio, bem diferente, ele era amarelo claro com janelas verde escuro, tinha uma mureta com floreiras onde cresciam coroas de cristo e o jardim era cheio de hortencias; morávamos no térreo e a primeira janela com veneziana era o meu quarto.
Grupo Escolar Coronel Carlos Porto, o "Grupão", na mesma rua da minha casa, onde estudei o Primário, hoje o casarão abriga um museu

quando estudei aqui era Colégio Estadual e Escola Normal Doutor Francisco Gomes da Silva Prado, terminei o curso Normal em 1970

este "arco-iris verde-amarelo" pintado nas pedras foi feito nos anos de ufanismo militar e continua lá, estragou o prédio.









igrejinha do Avareí, onde começou a vila que se transformou na cidade












vitrais da capelinha da Igreja Matriz, um lugar lindo e de muita paz...









altar da capela Coração de Jesus onde fica o Santíssimo
a Matriz

altar da matriz Nossa Senhora da Conceição padroeira de Jacarei
relógio da Igreja de São Benedito
igreja de São Benedito no Largo do Rosário
igrejinha de Nossa Senhora Aparecida, perto do rio Paraíba do Sul
belo prédio da delegacia, funcionava aí a cadeia pública municipal
piscinas do Clube de Campo, quantas boas lembranças...
obrigada Puppo!!!!

1.3.08

a cor violeta

Posted by Picasa
nesta época do ano a cor violeta surge
colorindo ruas e jardins pela cidade,
são as quaresmeiras florindo,
têm esse nome porque florescem no período da Quaresma,
da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo de Páscoa.
(esta da foto está no estacionamento de um supermercado e fotografei hoje a tarde)