Bolinho Caipira de Jacareí
Bolinho da vó Nicota
Nos anos 50, quando eu era menininha, uma diversão eram as quermesses no Largo da Matriz de Jacareí, nas ocasiões de festas religiosas, e a grande festa era no dia 8 de dezembro, dia a Imaculada Conceição, padroeira da cidade.
Na pequena cidade de interior do Vale do Paraíba, com a população predominante católica, havia motivos para celebrar os santos. Era motivo também para as pessoas se encontrarem, escutarem a banda tocando no coreto enquanto as crianças brincavam no jardim de canteiros de rosas. Isso acontecia depois da missa. Lembro-me que quando estava dentro da igreja já sentia o cheiro vindo lá de fora e o burburinho dos que estavam montando as barracas.
quermesse no largo da Matriz
E tinha procissão. Na Semana Santa, depois da procissão e da missa tinha quermesse. Durante todo o mês de maio havia homenagem à Virgem Mãe, quando as crianças vestidas de anjinhos (e eu fui muitas vezes um deles) depositavam flores nos pés da imagem de Nossa Senhora da Conceição, no altar da Matriz, e depois tinha quermesse.
Em junho aconteciam as festas juninas, além da quermesse do Largo da Matriz as pessoas organizavam festas com fogueira nas casas e soltavam balão. Meu tio Gerson fazia grandes balões coloridos de papel de seda e soltava nas noites de Santo Antonio, São João e São Pedro, lá no quintal da minha avó para alegria de todos, era uma grande emoção ver os balões subindo até sumir aquele pontinho luminoso no céu se misturando com as estrelas.
Na casa da vó Nicota tinha um fogão a lenha, que me recordo, sempre aceso, ela fazia doces e compotas em grandes tachos, eram doce de mamão verde, de abóbora, de laranja, e o cheiro de cravo e canela exalava na casa toda.
Mas minha avó era famosa pelos bolinhos caipira que preparava. Nas quermesses da Matriz lá ia ela, minhas tias, minha mãe e as amigas com os apetrechos montar a barraca e preparar os bolinhos. Era grande movimento dentro da barraca para atender a fila de fregueses. Nunca me deixavam ficar dentro da barraca porque eu era pequena e podia ser perigoso, levavam um fogão e fritavam na própria barraca, espalhando o cheirinho típico por toda a praça. O bolinho saia crocante e quente, feito para aquecer o corpo e os corações.
Depois, quando adolescente, no colégio faziam festas juninas, e minha mãe, como professora de Artes, era uma das organizadoras dessas festas, preparando enfeites e criando brincadeiras para os alunos e suas famílias. E lá também era montada uma barraca de bolinho caipira. Várias pessoas ajudavam, era a barraca mais concorrida. A renda dessa barraca era para a festa de formatura, naquele tempo do então Ginásio.
colégio Silva Prado
Para minha mãe esse bolinho tem sabor de namoro. Ela se formou professora, deixou sua cidade, Botucatú, para lecionar em Jacareí, morava num pensionato para moças quando conheceu meu pai, filho de Edo e Nicota. Quando ele ia namorar levava bolinhos caipira quentinhos que minha avó tinha acabado de fritar. E foi assim que ela, curiosa, foi aprender com a sogra a preparar os bolinhos. Foi assim que ficou herdeira da receita e também participou da divulgação do bolinho. Não existia festa em nossa casa que não tivesse os bolinhos.
O sabor daquele bolinho está na minha memória, nunca mais encontrei nada parecido, parece que a alegria das festas tinha a ver com aquele gostinho de farinha de milho branca misturado com carne de porco temperadinha. Uma verdadeira delicia.
Minha mãe continuou com a tradição da familia, fez muitas e muitas vezes o bolinho, sempre presente lá em casa. Depois fez mais muitas e muitas vezes para meus filhos cada vez que ia ver os netos.
Eu aprendi a fazer, mas acho que não tenho "a mão", não fica nem parecido com o que a vó Nicota e a mamãe preparavam, aquele gostinho de infância. Será por causa da farinha? da carne? do óleo? da panela? do fogão? Será por causa da simplicidade que não mais existe?
Hoje vejo inúmeras variações de receitas de bolinho caipira, acrescidos de outros ingredientes, pode até ficar bom, mas gostoso mesmo é aquele com a lembrança do afeto de quando era criança.
Assim são as receitas, de uma criação surgem várias versões, cada cozinheiro dá o seu tom. As tradicionais são as básicas, o que não impede que as novas criações e mesmo as releituras das antigas receitas possam surpreender.
Porém, importante é saber a história, preservar a memória e conservar o que nossos antepassados nos legaram. Por isso, a receita da minha avó Nicota, a dona Ana Rita Leite Gehrke, é mantida como foi criada e continua, para mim, a mais saborosa.
vó Nicota
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5 comentários:
Lembrei-me de quermeses, a Igreja da Lapa, prossissões sempre antes do sol nascer, fiz a primeira comunhão com 5 anos de idade, papai era professor de catecismo e minha mãe diretora, íamos à missa das 8:30 nos domingos e depois tínhamos aulas de catecismo. Jesus em primeiro lugar.
Lindas lembranças, Ju. Gosto do jeito que você escreve que eu lembro-me de minha infância. Seríamos amigas na infância se tívessemos nos conhecido pequeninas. Bjs
Adorei a receita do bolinho da d Nicota ........amiga da vovó!!!!!Que saudades.....O blog está mto lindo....vc tb!!!!!bjos e um ótimo dia dos namorados...rs rs rs !!!!!!!!!!!!!!!
Oi querida prima, li sua receita do bolinho caipira e vi seu blog e gostei muito principalmente a homenagem à Vó Nicota que é merecedora pois foi o alicerce de nossa família e parece que não é muito considerada pela maioria.Eu que a conheci muito e inclusive a ajudei algumas vezes a fazer o tal bolinho sei que sem ela a família Gehrke não seria a mesma.Tenho um orgulho imenso de ser sua neta e me inspiro nela para a minha vida.Espero que ela seja reconhecida por todos da família pois tudo começou com ela e que ela tenha trasmitido a todos os seus descendentes sua coragem, força, generosidade e fé.Um grande abraço
Roseny
O máximo Ju.
Saudades e mais saudades que matamos e agora começamos a ter novamente.
Daqui a 4 m estaremos juntos novamente para matar mais saudades e de muito mais gente que vamos encontrando por esses caminhos.
Hoje já resgatei mais 1 amigo, grande amigo, o Antonio Claudio.
Parabéns pelo blog está uma paixão!
O prefeito Hamilton Mota (PT) sancionou a Lei que registra o “Bolinho Caipira” como patrimônio cultural e histórico de Jacareí.
De autoria do vereador Edinho Guedes (PPS), a propositura tem como objetivo proteger a cultura e defender os interesses históricos do município.
A Lei n.º 5.497/2010 foi publicada no Boletim Oficial de Jacareí no dia 23 de julho.
De acordo com a lei, considera-se como “Bolinho Caipira de Jacareí” a iguaria preparada fundamentalmente com: massa de farinha de milho branca, polvilho doce, sal, alfavaca ou cheiro-verde, recheada com carne de porco ou peixe da espécie de lambari.
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